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“Tatu não sobe em árvore"


10/12/2013 11:42

O mundo corporativo está recheado de histórias e frases que tentam explicar comportamentos, ações, reações, situações e relações. Ao longo de toda a minha carreira, já ouvi diversas, que acabam circulando em correntes de emails e que muitas vezes viram jargões recorrentes. De todas, duas sempre me chamaram a atenção. Não só pela simplicidade e objetividade das mesmas, mas pela reincidência que aparecem em qualquer empresa pela qual passei. Quando falo sobre elas (uma história e uma frase), me impressiona também o eco que encontro do outro lado. Ou seja, são exemplos de situações que acontecem rotineiramente em qualquer lugar e em qualquer tempo.

A primeira história me chegou travestida de um conto japonês milenar que diz mais ou menos o seguinte:

“Em uma planície, viviam um Urubu e um Pavão. Certo dia, o Pavão fez a seguinte reflexão:
- Sou a ave mais bonita do mundo animal. Tenho plumagem colorida e exuberante, porém não posso voar para exibir essa minha beleza. Feliz é o Urubu que é livre para voar para onde quiser.

Do outro lado, o Urubu também refletia no alto de uma árvore:
- Que infeliz eu sou. A ave mais feia do mundo animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos. Quem me dera ser belo e vistoso como o Pavão.

Foi quando ambos tiveram a brilhante ideia:
- Vamos nos juntar. Um cruzamento entre nós vai gerar descendentes que voarão alto como o Urubu e serão belos como o Pavão.

Diante da idéia genial, cruzaram e daí nasceu o Peru, que é feio toda vida e não voa meio metro.”

A história traz duas lições:

1) Se a coisa está ruim, sempre pode piorar com as “ideias brilhantes”.
2) Fazer gambiarra (ou seja, tentar dar um jeitinho) sempre dá problema.

Sempre que ouço essa historinha lembro da quantidade de Peru que vivo encontrando pelo caminho. São sempre frutos de uma ideia brilhante que não levou em consideração todas as possibilidades envolvidas. Ou todas as conseqüências que poderiam ter. E quando começo a puxar o “fio da meada”, descubro que o problema original era de solução muito mais fácil do que ter que matar um Peru agora.

Outra coisa que me chama a atenção neste conto – e é o meu segundo aprendizado – é a parte que fala sobre as gambiarras. Também não é incomum encontrar essa prática para onde quer que se olhe dentro das corporações. É aquela história de encobrir um erro com outro. “Ah, não deu certo assim, vamos em frente mudando um procedimento”. Muitas vezes me parece que a pressa da entrega queima etapas importantes. E que a dificuldade de admitir um erro em um mundo empresarial cada vez mais competitivo faz com que as pessoas nunca queiram voltar ao ponto de partida para reavaliar suas ações. Preferem tentar corrigir os desvios com outros desvios, construindo assim um verdadeiro castelo de cartas prestes a desmoronar ao primeiro vento mais forte.

O outro exemplo que gosto de citar sempre não é uma história, mas um ditado que diz que “Tatu não sobe em árvore”. Para quem já ouviu com a devida explicação fica fácil entender. Mas, para os iniciantes no mundo corporativo, aqui vai a explicação completa: se o tatu não sobe em árvore e ele está lá, é porque alguém o colocou. Quem já não se deparou com uma situação dentro da empresa e fica imaginando como aquilo aconteceu.Um procedimento falho, uma pessoa no lugar errado, um chefe que não devia chefiar e tantos outros exemplos. Mas o importante é saber que, se aquilo está ali naquele lugar e não tinha condições de chegar sozinho, é porque foi posto por alguém. Ou seja, não subiu na árvore sozinho.

Só com este conceito bem consolidado na sua cabeça será possível tentar resolver o “tatu” em questão. Neste caso, não adianta bater de frente ou derrubar o tatu a pedrada porque certamente você será alvo de quem o colocou lá em cima, alguém que o defenderá com unhas e dentes. Sabedor disso, a única saída é você ajudar o tatu a descer. E aqui vai um segredo: geralmente ele quer descer, pois sabe que lá em cima é alvo de quem quer derrubá-lo. Mas como uma “força maior” o colocou lá, não tem como descer sozinho.

Resumindo, aqui vão três lições importantes para sobrevivência no mundo corporativo:

1) Não faça gambiarras.
2) Ideias brilhantes não resolvem o problema sozinhas, devem ser seguidas de um bom planejamento.
3) Descubra sempre quem “criou o problema” e o ajude na solução. Não adianta bater de frente e ficar apontando o erro.

O Peru e o tatu agradecem!

Autoria: André Moragas

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