Blog

Fazer de Campo Grande uma cidade de leitores.


17/10/2013 00:01

Ronilço Guerreiro

Uma batalha em prol da solidariedade e da educação que se transformou em ferramenta de estudo para si mesmo e demais profissionais do ramo da pedagogia e principalmente psicologia.

Há cerca de 17 anos a “Gibiteca Mais Cultura” vem oferecendo uma diversidade de cultura, com mais de 20 mil gibis em seu acervo, oficinas de desenho, artesanato, acesso a internet entre outras diversas atividades que trabalhem a educação das crianças do bairro Jardim Oracilia e região.

 

O idealizador do projeto, o psicólogo Ronilço Guerreiro, conversou com o CAMPOGRANDE.NET, contou sobre a história do projeto e também sobre a “Gibicicleta” que ficou conhecida nacionalmente, por ser uma bicicleta especial, com um baú e diversos gibis percorrendo diferentes pontos da Capital promovendo a leitura.

“A Gibiteca engloba a questão social, solidariedade e pesquisa”

O popular “Guerreiro” bordão adotado e que acabou virando seu apelido, admite que inicialmente idealizou a Gibiteca em prol da solidariedade e da questão social, mas que ela se transformou em um objeto de estudo para a sua profissão.

“Quando fundei a Gibiteca foi por uma questão social e ainda é. Só que depois comecei a perceber que poderia ser um instrumento de experiência acadêmica. Até minha defesa sobre psicologia escolar foi sobre a Gibiteca e também será do mestrado”

Ele afirma conhecer o perfil de cada criança conforme a escolha e preferências por tipos e histórias de gibis.

Transformou a Gibiteca em um “Ponto de Cultura”, foi convidado a participar do programa da apresentadora Regina Casé, o “Esquenta”. Ganhou a “Gibicicleta” do humorista Fábio Porchat.

Atualmente trabalha ministrando aulas no SENAI, palestra motivacionais para empresas, aula de empreendedorismo, gestão de RH, entre outros diversos temas.

Não tem nenhum fim lucrativo com os projetos culturais. Pretende em breve expandir a Gibiteca e transforma-la em uma Arena Cultural. Também criar pelo menos outras cinco parecidas com a instalada no Jardim Oracilia e outras dez “Gibicicletas”.

Confira a entrevista na íntegra:

Qual o significado do gibi para você?

O Gibi para mim é um instrumento de investigação, interpretação e intervenção. Sou psicólogo, quero que esse seja o tema do meu mestrado “O papel do gibi no processo de alfabetização emocional da criança” e adoro ler histórias em quadrinhos.

O Gibi me acalma, sempre carrego no carro diversos exemplares, um dia desses eu estava estressado, com problemas do dia-a-dia, entrei no shopping fui ao banheiro e li um para me acalmar. É uma ferramenta para acabar com o estresse.

Quando surgiu a ideia de criar a Gibiteca?

Em 1995, um amigo meu foi para Curitiba e me contou sobre uma Gibiteca que viu lá. Comprei uma passagem de ônibus e fui até lá para conhecer. E nesta época eu trabalhava no período da madrugada no antigo Hotel Campo Grande e eram usados aqueles “telex” ou o velho fax. Comecei a mandar mensagens para diversas embaixadas pedindo ajuda para montar a Gibiteca.

Mandei 180 pedidos de ajuda, desses dez responderam falando que não poderiam ajudar e dois toparam ajudar. A embaixada da França e da Austrália, doaram todos os moveis. Pediram orçamentos e enviaram o dinheiro para comprar  tudo.

 

Em seguida a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos) nos doou 800 livros, para iniciarmos o nosso acervo de literatura. Todo nosso acervo é doado.

A TV Morena e Rede Globo lançaram na época o projeto Brasil 500 anos, e todos os gibis que eles arrecadaram, seria doado para a Gibiteca. Foram mais de 15 mil gibis, que temos aqui até hoje, todos com um carimbo especial.

E esse imóvel como foi construído?

Pedindo doações ainda na época do Hotel, cimento, tijolo, fui conseguindo tudo aos poucos. Esses dois lotes eram de uma imobiliária que faliu, então grilei, invadi mesmo. Entrei na justiça e ganhei a causa e esse é um patrimônio da comunidade. Eu grilei para a comunidade!

Como foi o processo para transformar a Gibiteca em “Ponto de Cultura”?

Há dois anos atrás consegui transformar a Gibiteca em um “Ponto de Cultura”, quando o Gilberto Gil era ministro ele lançou esse programa. Foram abertos alguns editais para Campo Grande, eram seis vagas para 36 projetos. E conseguimos ser um dos selecionados.

Eles repassaram a verba e mudamos toda a estrutura, colocamos câmera, colocamos alarme, computadores, data show, montamos oficinas, sala com TV, entre outros diversos benefícios.

Você possui em seu acervo diversos gibis antigos e raros, como eles chegaram até a Gibiteca?

A esposa de um colecionador que faleceu, me procurou oferecendo toda a coleção dele como doação. Ela chorou muito e lembro as palavras dela até hoje, “Eu vou te deixar como herança esses gibis”.

Como psicólogo, você consegue avaliar seu paciente através da preferência dele pela leitura?

O gibi fala muito, uma criança não sabe ler, ela pega o gibi e conta a historia dela. Quando ela tem a preferência por gibis e histórias do Walt Disney, que conta sempre histórias de animais, é uma criança que gosta de liberdade, você chega para conversar e ela revela muitos sonhos, sair de casa, morar sozinha, casar, se divertir, entre outros.

Já aquela criança que gosta das histórias do Maurício de Souza, que são histórias envolvendo seres humanos, quase sempre ela tem família completa, tem pai, mãe, irmãos, possuem um vínculo familiar.

 

Aquelas que gostam dos gibis de super-heróis, quase sempre, tem pai ou mãe ausente, uma mãe super protetora, não tem pai ou então deve morar com a avó. Então ela está em busca de um herói.

“Por exemplo, tem uma casa, com uma chaminé, quando está saindo fumaça é sinal de quê? Tem fogo certo? Então onde há fumaça, há fogo e aí eu começo investigar o que se passa com essa criança”

Se a criança vem sempre aqui e só quer ler os gibis de heróis, já fico de olho, peço pra minha assistente bater um papo com ela, saber o que se passa. Muitas vezes está acontecendo algo na casa dela, ou está morando com a avó, ou não vê faz tempo seu pai. São os casos mais comuns.

Quando pensou em criar a Gibiteca, talvez sua visão seria de solidariedade, você acredita que ao longo da sua formação na psicologia ela tenha mudado direcionando para o estudo acadêmico?

Sim, quando fundei a Gibiteca foi por uma questão social e ainda é, só que depois comecei a perceber que poderia ser um instrumento de experiência acadêmica. Até minha defesa sobre psicologia escolar foi sobre a Gibiteca. Uma acadêmica da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) utilizou o nosso projeto como tese de mestrado.

A nossa Gibiteca se tornou referencia no Brasil.

E num futuro próximo, quais os planos com a Gibiteca?

“Minha ideia é criar uma Arena Cultural, salas com oficinas de desenho, “Mangá”, teatro. Com parcerias criar cinco gibitecas nas comunidades em Campo Grande, nas Moreninhas, no Nova Lima, no Aero Rancho, pensa no centro da cidade, não tem o que fazer vai ler gibi”.

Não é difícil, um projeto como este não é caro. Tem recursos sobrando, mas faltam projetos. Se tem projeto, tem recurso. Não pode ter essa história de “eu acho”, tem que ter números.

E quero colocar dez “Gibicicletas” para rodar pela cidade.

Como surgiu a ideia da “Gibicicleta”?

Tem um projeto em São Paulo, criado por um morador de rua chamado “Bicicloteca”, com livros. E foi aberto um edital a partir desta ideia de criar novas “Biciclotecas” pelo Brasil. Entrei em contato com eles e eles mesmos sugeriram para eu montar uma “Gibicicloteca”.

E eu trabalho muito com as redes sociais e mandei pelo Twitter um pedido de ajuda, o humorista Fábio Porchat, da Rede Globo, com quem eu sempre “tuitava” ficou sabendo da Gibiteca. No dia do aniversário dele, eu mandei os parabéns e ele respondeu agradecendo e pedindo o número da conta bancaria para ele enviar o dinheiro da “Gibicicloteca”. Até falei, no dia do seu aniversário e eu quem ganho presente? (Risos)

Pesquisei os valores e enviei o orçamento a ele. No outro dia ele respondeu que pagou direto com a empresa e que já seria entregue. Em seguida mudei o nome da ideia para Gibicicleta, pois tinha a ver mais com gibis.

Qual o roteiro da Gibicicleta?

Visitamos a feira livre próxima a Gibiteca, em seguida para a feira do Cabreúva. Aos sábados a Praça do Rádio Clube, quando reabrir a Ary Coelho passaremos por ela e queremos rodar a cidade promovendo a leitura.

Nós paramos a bicicleta, ela tem um baú, com dez banquinhos atrás e disponibilizamos diversos gibis. As pessoas podem se acomodar e ler seu gibi.

Você mencionou sobre a possibilidade de novas Gibitecas, quanto custaria uma pronta?

Tirando o valor do imóvel ou sala comercial, uns 10 mil. Aí os gibis vem de doações. O problema hoje é a mão de obra. Vivo da ajuda de estagiários e da Rosa (única funcionária “emprestada” pela prefeitura). Mas estou pagando do meu bolso a internet, o telefone e o sistema de segurança.

Você já participou em 2011 do programa da Regina Casé, o “Esquenta”, como surgiu o convite?

Um amigo, que foi aluno meu, me ligou e perguntou se tinha ainda a Gibiteca, e falei que sim. Ele perguntou se podia passar meu contato para a Globo. Eu falei que podia. Mas daquele jeito até parece que eles entrariam em contato comigo.

E no dia 11 de outubro do ano passado (2011), a produção do programa entrou em contato comigo. Perguntaram sobre a Gibiteca e pediram para conhecer ela. Foram visitar ela no mesmo dia, mas filmaram rápido e prometeram levar para a Regina as imagens.

No dia seguinte o mesmo produtor voltou a me ligar. Dizendo que ela amou o projeto e se podia filmar novamente lá. Claro que topei. E ele respondeu que já estava na frente da Gibiteca esperando.

Aí já filmaram tudo com muita calma, e até falei que me avisaram muito em cima da hora, não deu nem para dar uma camisa do projeto para levar pra Regina. Ele respondeu, “não precisa, quando você for ao Projac você entrega pessoalmente a ela”. E duas semanas depois fui convidado. Fiquei muito feliz de participar, me senti o máximo.

Depois da participação no programa aumentou muito a nossa popularidade, nas doações, onde a gente vai as pessoas reconhecem a Gibiteca.

Você sofre muito com o assédio de colecionadores sobre o acervo da Gibiteca?

Sim, tenho esta sala a parte aqui que guardo os exemplares mais raros e valiosos, pois tem um valor emocional e hoje em dia um valor bem alto. Na verdade pra mim não tem preço. Hoje mesmo um rapaz entrou em contato comigo querendo negociar, pedindo meu preço. Mas não vendo.

“Teve um colecionador que ficou aqui em frente a Gibiteca, querendo que negociasse com ele. Tenho medo, por isso essa sala a parte, grades, câmeras, alguns podem valer mais dois, três mil reais, mas não negocio, sou apaixonado”

Agora falando do seu gosto, quais os gibis e personagens favoritos seus?

Chico Bento. Sou apaixonado pelas histórias, talvez por morarmos numa região que a matriz econômica é a agricultura e a pecuária. Todo mundo que mora em Mato Grosso do Sul, tem um “pezinho” no meio rural. Meus pais vieram do mato, “nois é ruralista mesmo, nóis é do mato”.

 

Outros Artigos